Muitos vestibulandos se esforçam pela conquista de uma vaga nas
instituições de ensino. Essa dedicação aliada a outros fatores pode
desencadear um quadro de transtorno de ansiedade, segundo
especialistas
Por Paulo Domingos
O período para prestar os vestibulares para o ingresso nas instituições
públicas ou privadas e conquistar uma vaga em um curso de graduação está
chegando. O exame é fundamental para os jovens que já veem se dedicando
aos estudos a meses ou até anos para o processo seletivo.
E para realização desta etapa importante o vestibulando acaba por renunciar
festas, passeios, viagens e outros tipos de lazer até na companhia da família.
Os alunos que estão no último ano do Ensino Médio ‘não estão cansados’ de
ouvirem o ano inteiro os professores repetirem “Este conteúdo já caiu no
vestibular”; “ Aprendam bem este conceito, porque é comum cair no vest...”
Não estão cansados, porque sabem que para conseguirem uma classificação
nas instituições de ensino é necessário ter um bom desempenho na prova.
Inclusive fazer cursinhos preparatórios, realizar muitos simulados, elaborar
redações, ler muita literatura; entre outros esforços que só quem já trilhou ‘a via
sacra’ tem condições para avaliar o desgaste físico e psicológico que o
processo exige.
Outra preocupação é sobre a quantidade das vagas para o curso em que o
aluno escolhe; não tem ‘ a granel’. Há critérios rigorosos que não depende
apenas da pontuação ser boa. Todas essas preocupações marcam a vida do
jovem que está nesta fase da busca da sua autonomia, que até pouco tempo
era dependente dos pais. E essa mudança juvenil é marcada por muita
turbulência porque envolvem mudanças físicas e socioemocionais além dos
fatores familiares, amizades; a busca por uma identidade, a profissão que o
jovem vai exercer. Toda essa carga de informação é despejada na cabeça do
jovem e se transformar em uma cobrança. É desta forma que muitos
estudantes se empenharem aos estudos de modo intenso comprometendo a
saúde, sono, alimentação e higiene mental.
Este esforço pode causar uma estafa psicológica e um sentimento de
insegurança e medo de fracassar, porque temem não conseguir vaga no curso
sonhado.
Muitos alunos que irão prestar o vestibular este ano tiveram aulas remotas
durante a pandemia e de certa forma desestruturou o ritmo de estudos destas
turmas.
Para a Psicóloga Clínica, que trabalha com Psicoterapia Positiva Luciana
Deutscher esse período com certeza de alguma forma afetou a vida destes
alunos: “ Todas essas mudanças abalaram o emocional dos alunos,
intensificando a ansiedade, o estresse e a pressão no vestibulando.
Na sala de aula presencial havia a presença dos professores e colegas que amenizavam a
ansiedade, já quando se tornou remoto, era o aluno com ele mesmo”, disse
Detscher
Além das questões da pandemia e da disciplina para estudar ainda há a
sobrecarga de cobranças da família que as vezes exige que o aluno se forme
em determinado curso. É o que avalia Detsche,” Muitos são imaturos, e a
época do vestibular é uma pressão, e muitos pais exigem resultados,
principalmente a aprovação em uma determinada faculdade. Por isso é muito
importante que o jovem crie uma rotina, de estudo e de lazer. Lazer não
significa festa ou estar na rua, mas também assistir um bom filme, uma série,
fazer exercícios, mudar o foco do estudo, algo prazeroso”, completa a
psicóloga.
Este quadro de esforço intenso que tem a pretensão de melhorar o rendimento
dos estudos pode ter o efeito contrário e desencadear um transtorno de
ansiedade.
Para a outra Psicóloga Isabella Consoli é compreensível que para muitos o
vestibular é o primeiro desafio de grande responsabilidade na vida. E por isso
causa muita pressão da sociedade, da família e do próprio estudante, ela diz: “
Quando a gente avalia [alguns casos] muitas vezes o ambiente familiar é super
tranquilo, favorável e acolhedor, mas que o vestibulando que se coloca para
baixo (...) e há uma ideia [como se o vestibulando dissesse] se eu não passar
neste vestibular, eu não sou bom, sou um fracassado”. Ela diz ainda que tudo
vai depender do planejamento e da forma como o vestibulando organiza a sua
vida para evitar desgastes emocional: Ӄ importante o vestibulando planejar o
seu tempo e local de estudo, e não se massacrar, se isolando da família e dos
amigos para que isso não abale emocionalmente prejudicando sua
concentração e o propósito principal do seu empenho(...)[tem vestibulando que
] Coloca a autoestima e o autovalor, tudo em prol do vestibular (...) quando
começa a estudar é por culpa e acaba não aprendendo nada. E se sente pior
porque não está conseguindo estudar e acaba se sentindo pior”, completa
Consoli.
Outro fator importante que causa muita angustia em muitos estudantes que irão
prestar o vestibular é a escolha do curso. Há sempre uma dúvida em relação a
qual formação escolher. Outro processo de autotortura.
O ideal é sempre pesquisar ao máximo sobre aquela determinada formação
pretendida e quais são as profissões que o mercado está oferecendo para esta
formação. Para que o aluno não tenha surpresas quando concorrer um estágio
ou estiver com o diploma.
No entanto, Isabella Consoli diz que é preciso tomar cuidado quando se cria
muita expectativa sobre um determinado curso acima dos outros e achar que
não vai ter algum possível arrependimento é uma ideia arriscada. “ As pessoas
acham que não podem errar nunca; que esta é a minha formação e vai mudar
a minha vida inteira; o ideal é procurar pessoas que trabalham em
determinadas áreas, entrevistar e pesquisar ao máximo (...) a gente tende a
criar estereótipos das profissões”, disse a psicóloga.
O Psiquiatra e Psicoterapeuta Dr. Alan Oliveira, que oferece tratamento e
orientação aos vestibulandos dá algumas dicas para melhorar o rendimento
nos estudos e principalmente diminuir os sintomas da ansiedade:
É importante a divisão do tempo de estudos em relação ao do descanso; É
possível aumentar ainda mais a ansiedade quando a pessoa sabe que não
haverá uma pausa, e isso atrapalha o rendimento.
Método Comodoro, o vestibulando estuda vinte e cinco minutos e descansa
cinco; e depois retoma novamente vinte e cinco minutos. Esse procedimento dá
um tempo de alívio e ajuda a concentração. Para não atrapalhar o ritmo ao
olhar em instantes para o relógio têm aplicativos que podem ajudar nesta
tarefa.
A alimentação leve e nutritiva, dormir bem e praticar atividades aeróbicas
irão ajudar bastante espairecer o foco nos estudos, além de dar o tempo
importante para o cérebro processar as informações além de diminuir o estado
de ansiedade.
A respiração profunda, com inspiração pelo diafragma e depois expirar
lentamente. Isso ajuda muito ao autocontrole e da ansiedade.
Origem do problema, às vezes quando a pessoa está muito ansiosa é
importante o questionamento da origem. De onde está vindo este mal? Talvez
pode ser que esteja estudando português, mas preocupado com a matemática
ou a física. Se for isso, basta se organizar e dividir o tempo adequado para se
dedicar o tempo exclusivo para aquele determinado compromisso que está se
‘pré-ocupando’.
Imaginação. A ansiedade pode ter origem também em alguma imaginação.
Será que o candidato não está fixando o vestibular como a única saída da
vida? Se realmente o vestibular for a única razão da sua vida. Realmente tem
sentido o estado de ansiedade. Mas é apenas uma prova e não uma guerra
entre viver e morrer.
Se a ansiedade estiver incontrolável ao ponto de atrapalhar os seus estudos, o
recomendável é procurar um profissional para buscar ajuda, avalia Oliveira.